Se encontre, se perca, se deite e sonhe. Dance e olhe para dentro. Olhe para nunca se esquecer de quem és.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Lágrimas e muito Medo


Era mais um carnaval e nós estávamos felizes porque passaríamos o feriado ao lado de amigos no encontro da igreja. Eu tinha 16 anos e desde os 12, sempre que podia, me juntava a esse grupo para as reuniões e retiros, pois a diversão e crescimento espiritual eram garantidos. Não havia melhor energia e melhor lugar para estar senão com eles.

Neste ano os meninos haviam encontrado um sítio top demais, com uma área de lazer maravilhosa e a casa super bonita e aconchegante. Aquele encontro prometia ser maravilhoso!! Alguns jovens visitantes também estavam lá e a troca de experiências estava apenas começando.
Chegamos, dividimos a galera por faixa etária e sexo nos quartos existentes e logo fomos deitar, pois 7h da manhã todos estaríamos de pé para o início das atividades.

Ainda eram 4:30h da manhã e eles diziam: "Levanta, levanta!! Desce as escadas!"
Eramos umas 10 moças alí naquele quarto.
Encapuzados e armados, me lembro até hoje da sensação do cano da arma na minha costela empurrando para descer logo.

Lá em baixo os homens já estavam todos aglomerados no hall da lareira com um dos bandidos, armado, escoltando.

As senhoras e crianças estavam presas no banheiro da suíte e nós fomos colocadas no banheiro social, de 1,5m x 1,5m, talvez, dividindo o espaço com a pia e o vaso. Estávamos apavoradas. Algumas choravam, outras oravam, outras quietas observando e ouvindo (eu). De cabeça baixa o tempo todo só via o pé e a arma do que ficou na porta do nosso banheiro enquanto os outros (não sei quantos) roubavam nosso dinheiro.

De repente uma das moças foi puxada para fora do banheiro e o desespero aumentou ainda mais. O que eles vão fazer? O que tá acontecendo? Já roubaram o que queriam, pq não vão embora?

Alguns poucos minutos depois a moça retorna, enrolada em um lençol, chorando e tremendo. Ela havia sido ESTUPRADA.

Não satisfeitos, outra moça foi puxada para fora do banheiro! Eu não me recordo de ouvir nada, não me recordo quantos eram, mas logo ela retorna para o banheiro, também em estado de choque e com o short remexido. Ela também havia sido ESTUPRADA.

Dentro do banheiro não sabíamos o que fazer, não tínhamos força, nem voz, nem nada. O que tínhamos era medo de morrer. Mesmo vendo o estado das meninas, era impossível imaginar todas as dores que elas estavam sentindo. Era impossível não sentir medo! O que eu via era o pé descalço do bandido armado na frente da nossa porta, só.

Não sei como nem quando eles foram embora! Não sei quanto tempo durou a eternidade dentro daquele banheiro amontoado de choro e medo. Houve um momento que pudemos sair dali e ao reencontrar os demais, as reações foram infinitas. Me lembro que o primeiro que abracei foi meu primo Daniel. Tão nervosa, eu ria e chorava... Sentia alívio por mim e dor por elas. Meu medo havia passado, mas assistir a impotência dos homens e dos namorados delas, causava uma dor imensa.

Meu tio me levou para a rodoviária e fui ao encontro dos meus pais. Me recordo de ter deitado a tarde para dormir e acordar chorando de medo, ter pesadelos e sentir a presença dos bandidos me dizendo pra levantar.

Eu nunca pude esquecer as pessoas que estavam lá nesse dia. Não costumamos falar sobre isso. Mesmo depois desses 15 anos, nunca toquei nesse assunto com quem esteve lá. Foi triste, amedrontador e inexplicável.

Não podemos mais ignorar essa cultura do estupro. É preciso tomar medidas sérias para esse tipo de crime. Só quem vive, sabe o pavor que é andar na rua após 23h. Só mulheres entendem o que é a impotência diante de um opressor. Só quem vive pode calcular o grau de perversidade nas atitudes e palavras de um estuprador. Não podemos mais banalizar a luta feminina.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Mais um "Dia"

Hoje ainda é quinta-feira (dia 03/03), mas nunca é cedo para dizer sobre coisas importantes. O Dia Internacional da Mulher está chegando e só para que você caia na real, esse dia existe por isso aí abaixo:

"No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano."

Não sei você, mas eu SEMPRE choro quando leio isso e, definitivamente, esse é mais um ano que não quero ganhar flores. Quero 01 minuto de silêncio ao acordar, 01 minuto de silêncio ao ir deitar e quero 24 horas de silêncio se for assediar uma mulher ou diminuir ou desmerecer ou manchar ou enxovalhar ou rebaixar ou aviltar ou injuriar ou desacreditar ou desonrar ou difamar ou caluniar ou desrespeitar ou ... !!!
Cara, de fato concordamos que, talvez, existam algumas causas um pouco perdidas, inconsistentes e exageradas. Pode ser, ok. Mas isso é reflexo de um DESESPERO terrível. Definitivamente, não temos que ouvir histórias todos os dias de GOSTOSAS CARNUDAS que apanharam na cara porque não gostaram do "elogio". Não quero ouvir que mulheres precisam se arrumar mal para um dia de trabalho porque o gerente fala sobre como a calça está marcando e o quão gostosas elas parecem ser. É o seguinte, não queremos mãozinha na cintura nem beijo molhado no rosto. Não queremos ter pesadelo de imaginar que o porteiro pode estar mancomunando com os outros para invadir nossos apartamentos e nos estuprarem. Você não entende essas coisas e acha tudo bobagem? Caguei para sua opinião e se reclamar vai ter mais postagens. E se reclamar de novo vão ter mais 02... Não conheço nem a milésima parte das histórias de tantas e tantas mulheres espalhadas por esse mundo que vivem se escondendo e chorando por problemas infinitos que jamais saberei e nunca poderei julgar. Conheço os meus e das minhas amigas. Conheço o que assisto e leio dentro de um universo pequeno demais para ser parâmetro. O que sei é o que está no meu subjetivo e no medo que mora nas nossas escolhas diárias de por onde andar, com quem falar, o que falar, se somos mesmo quem somos ou se isso tudo não é fruto de um rostinho singelo ou uma risadinha mal interpretada. Já ouvi inúmeras vezes: "Ah, mas tem mulheres que gostam desse tipo de abordagem!!" DANE-SE!! Não me interessa! Não somos todas iguais para atestar essa afirmação. Tem homens que curtem fio terra, mas não é por isso que TODOS devem levar um dedinho do c*, assim, meio que na marra. Se ligou?
Mais um "Dia Internacional da Mulher" está chegando e é óbvio que mais uma vez centenas morrerão, milhares irão chorar e todas ainda estarão questionando o que é preciso ser feito por questões infinitamente maiores do que uma cantada sem graça, pois isso acontece TODOS os dias e esse "Dia" ainda será como qualquer outro.