Mulher, qual é a sua história?
Ontem recebi uma rosa que é símbolo de delicadeza e beleza (características atribuídas à mulher e que sempre são exaltadas às vésperas do dia 08 de Março). Sim, linda e cheirosa rosa! Apreciei o gesto oferecido, também as demais mulheres presentes ali, porém naquele momento comecei a refletir sobre minha história e o seu valor. Pensei sobre o quanto minha trajetória (que não posso trazer escrita na testa, infelizmente) diz sobre o que sou hoje e se não estou sendo subestimada e alvo de preconceito por não ter "calos" visíveis e "bolhas" prestes a estourar. Não quero flores, quero respeito e empatia tanto dos homem quanto das mulheres.
Desde pequena tive que ser disciplinada, tanto na escola, como no ballet. Meus pais, que me educaram muitíssimo bem, eram exigentes e não aceitavam que eu não tentasse vencer. Eles sabiam que nem sempre a vitória viria, mas queriam que eu tivesse ao menos tentado com dedicação, empenho e disciplina. Não estou falando de competições esportivas ou gincanas de matemática. Estou falando da vida, do dia a dia, da minha disputa comigo mesma. Com 15 anos entrei para um grupo de Aérobica Esportiva que 4 meses depois iria para um campeonato Sul-americano, na Argentina, e eu precisava aprender todos os elementos, ganhar força (muita força), flexibilidade e a confiança da equipe. Nossos treinos eram aos Sábados (de 7h as 23h) e Domingos (até 11h). Não foi fácil e mais uma vez precisei de muita dedicação e disciplina. Viajamos, disputamos, ganhamos medalhas e cumprimos a missão. Aos 17 comecei a sonhar em morar nos Estados Unidos. Até fiz planos com uma amiga, mas não deu certo. Fui então morar e trabalhar em Niterói. Todos os dias eu pegava a barca para o centro do Rio e vendia camisolas de luxo numa loja da Sete de Setembro. Foi 01 ano neste endereço e depois mais 01 ano na loja de Icaraí até passar na audição da Cia de Dança Contemporânea da UFRJ e virar bolsista de iniciação artística. Morei um tempo na minha avó, outro no meu tio, mas depois fui para uma pensão onde o quarto possuia 6m². Era um quarto bem pequeno, mas o suficiente para mim. Foi um tempo bom onde encontrei pessoas que guardo no coração com muita saudade.
Com a faculdade (Bacharelado em Dança) a vida ficou um pouco mais divertida. Conheci gente nova, dancei, criei, motivei, viajei e me mudei 04 vezes de residência. Morei novamente com meu tio, minha avó e depois duas repúblicas diferentes onde em uma eramos em 9 meninas e na outra, em 6. Ao longo da faculdade meu principal trabalho foi a Companhia e depois a Monitoria em Anatomia Humana, para as quais eu recebi bolsa. Porém no último ano do curso eu trabalhei como professora de ballet, jazz e contemporâneo em algumas academias de dança ganhando pouco (as vezes até pagando para trabalhar), assistindo dança, me emocionando, criando laços com alunas, pegando ônibus tarde da noite na passarela da Novo Rio, passeando e sonhando.
No meio disso tudo conheci um amor com quem compartilho a vida hoje e que me faz ser melhor a cada dia. Depois de muitas dúvidas juntos decidimos estudar Engenharia e assim começou mais uma etapa da vida onde sem dedicação não teríamos sucesso. Estou a 4 anos no curso de Engenharia de Produção e a 03 morando e trabalhando em Macaé.
Porque contei minha história?
Vez ou outra ouço discursos machistas irritantes (vindos de homens e mulheres) sobre sermos cheias de "mimimi", sobre o quanto é mais difícil para os homens se manterem fieis, sobre como alguém com pele e cabelos tratados pode estar falando sério quando diz que faxina sua própria casa, sobre o quão dificultoso é carregar sacolas de compras. Discordo de tudo isso! Imagina que até de lésbica já fui chamada por elogiar mulheres de maneira verdadeira e sem recalque ou inveja. Contei minha história porque penso que devo me orgulhar dela mesmo que escute todos os dias palavras de preconceito sobre quem pareço ser. Vamos cair na real e parar de julgamentos sem fundamento. Quem disse que mulher não sabe montar um armário? Ou que homem não pode passar uma camisa social? Isso é nossa culpa, também. Nós mulheres ainda não entendemos que devemos buscar espaço pelas habilidades e não pelas deficiências. Você leu isso? Vou repetir: buscar espaço pelas habilidades e não pelas deficiências. Sejamos coerentes com nossas histórias de vida onde cada uma conhece as dificuldades e as delícias. Não queira ser frágil! Eu não sou.
